Europa só tem combustível de aviação para seis semanas, alerta agência internacional
Bloqueio do Estreito de Ormuz estrangula fornecimento de querosene e ameaça temporada de verão; crise pode atingir viajantes brasileiros e portugueses.

O diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, lançou um alerta que ecoa dos aeroportos de Frankfurt a Sydney: a Europa dispõe de reservas de combustível de aviação para, no máximo, seis semanas. Em entrevista à Associated Press, Birol classificou a situação como “a maior crise energética que já enfrentamos” e associou a escassez ao bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde transitam cerca de um quinto do petróleo mundial. Com a guerra no Irão a interromper a navegação naquele ponto há mais de um mês, as refinarias europeias viram cortado o acesso a três quartos do querosene importado do Golfo Pérsico, precisamente quando o hemisfério norte entra na estação de maior procura por viagens aéreas.
As consequências já se materializam em cadeia. A transportadora irlandesa Ryanair comunicou que os seus fornecedores não conseguem garantir volumes suficientes de combustível, enquanto as companhias alemãs, através da associação BDL, pediram a Berlim que liberte reservas estratégicas e franqueie o sistema de oleodutos da NATO. Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos enviam fluxos recorde de querosene para a Europa, medida que evitou o colapso imediato, mas que cobre apenas uma fração do défice. Na perspetiva de observadores em Roma, o risco de paralisação do setor aéreo reacende o debate sobre a autonomia energética do continente e levou o próprio Birol a sugerir que a Itália reconsidere o regresso à energia nuclear.
A resposta oficial em Bruxelas contrasta com o tom de urgência da AIE. A Comissão Europeia afirmou não haver “indícios de uma escassez sistémica” capaz de provocar cancelamentos em larga escala, enquanto o governo alemão tentou acalmar o mercado assegurando que não existem dificuldades de abastecimento. Contudo, o Conselho Internacional de Aeroportos da Europa advertira, dias antes, que os primeiros sinais de falta de combustível surgiriam em três semanas. Para a Ásia e para a Oceânia, dependentes do petróleo do Médio Oriente, o choque é ainda mais agudo: viajantes australianos já enfrentam cancelamentos e sobretaxas, num prenúncio do que pode alastrar-se a outros continentes.
A União Europeia prepara-se para acionar mecanismos de emergência, que incluem um mapeamento da capacidade de refinação em todo o bloco e a maximização da produção interna. A própria AIE, criada em 1974 justamente para coordenar respostas a crises petrolíferas, estuda a ativação dos seus dispositivos de contingência. Para os mercados lusófonos, o impacto é duplo: companhias como a TAP e a Azul, que operam rotas densas entre Lisboa, o Brasil e destinos africanos, poderão ver os custos do combustível disparar, pressionando tarifas e a rentabilidade da malha aérea. Autoridades em Brasília e em Lisboa acompanham com apreensão os desdobramentos, cientes de que a eventual paralisação de voos no verão europeu teria reflexos imediatos no turismo e na conectividade das comunidades emigrantes. O desfecho depende, em última instância, da reabertura do Estreito de Ormuz – mas a profundidade da crise já reescreve os manuais de segurança energética globais.
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