EUA prolongam alívio nas sanções ao petróleo russo, apesar de promessa contrária do Tesouro
Licença de um mês permite venda de crude carregado até 17 de abril, num recuo face à declaração do secretário Scott Bessent de que não haveria extensão, num contexto de guerra com o Irão.

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos emitiu uma nova licença geral que prorroga por trinta dias a autorização para transações com petróleo e derivados russos carregados em navios até 17 de abril. A medida, válida até 16 de maio, substitui o documento de 19 de março que expirara a 11 de abril e abrange a venda, o transporte e a descarga do crude, incluindo operações que até agora estavam sob sanções. A decisão surpreendeu porque, apenas dois dias antes, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmara de forma categórica que Washington não renovaria tais isenções, tanto para o petróleo russo como para o iraniano.
O alívio temporário surge na ressaca do conflito com o Irão. Na sexta-feira, os preços do petróleo caíram cerca de 9%, depois de Teerão anunciar que o Estreito de Ormuz permaneceria aberto a toda a navegação comercial durante o cessar-fogo. O barril de Brent recuou 9,01 dólares, fixando-se nos 90,38 dólares, após ter tocado um mínimo intradiário de 86,09 dólares. Ao estender a licença, a administração norte-americana procura mitigar a escassez provocada pela guerra com o Irão e evitar um choque inflacionista global, ainda que o gesto contrarie a retórica oficial.
A autorização é ampla e contempla também as embarcações da chamada “frota fantasma” russa, previamente sancionadas. No entanto, mantêm-se as restrições a operações que envolvam o Irão, a Coreia do Norte, Cuba e as regiões ocupadas da Ucrânia, incluindo a Crimeia. A licença, emitida pelo OFAC, proíbe expressamente qualquer transação ligada a mercadorias de origem iraniana, desenhando uma fronteira delicada entre aliviar a pressão sobre o fornecimento russo e não enfraquecer a frente de sanções contra Teerão.
Na perspetiva de Brasília, a estabilização dos preços alivia o temor de um repique inflacionário que poderia afetar os combustíveis no mercado interno, ainda que produtores do pré-sal possam beneficiar da volatilidade. Observadores em Lisboa notam que a flexibilização temporária do crude russo poderá dar algum fôlego às refinarias europeias que ainda processam determinados grados, mesmo sob o regime autónomo de sanções da União Europeia. Para Angola, segundo maior produtor africano, a travagem da escalada de preços é bem-vinda, mas a crise recorda a vulnerabilidade dos exportadores lusófonos perante turbulências geopolíticas fora do seu controlo.
Olhando em frente, a extensão é um remendo provisório. Com o prazo de 16 de maio como horizonte, regressam as dúvidas sobre a durabilidade do quadro sancionatório. A negativa expressa de Bessent sugere que novas prorrogações serão politicamente custosas, sobretudo se a tensão no Médio Oriente persistir. Por ora, os mercados respiram, mas a contradição entre o discurso diplomático e a pragmática energética mantém a incerteza como nota dominante.
Esta notícia apareceu em
12 veículos · 5 idiomas · janela de 24 horas