Bloqueio naval dos EUA a portos iranianos dispara petróleo acima dos 100 dólares
Após falhanço das negociações de paz no Paquistão, Trump ordena bloqueio a partir desta segunda-feira. Irão acusa Washington de “pirataria”, mercados caem e analistas temem choque sistémico global.

O anúncio do presidente norte-americano, Donald Trump, de um bloqueio naval aos portos iranianos, que entrou em vigor às 16h de Lisboa (12h de Brasília) desta segunda-feira, fez o preço do barril de Brent ultrapassar a barreira dos 100 dólares, com o West Texas Intermediate a superar os 104 dólares, uma subida superior a 7%. A decisão, comunicada na rede social Truth Social, surge na sequência do colapso das conversações de cessar-fogo entre os EUA e o Irão em Islamabad, no Paquistão, ao longo do fim de semana. O tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, que já tinha sido fortemente reduzido, voltou a paralisar, segundo a Lloyd’s List Intelligence.
O Comando Central dos EUA (CENTCOM) precisou que o bloqueio se aplicará apenas às embarcações com destino ou origem em portos iranianos, permitindo a passagem de navios entre portos de outros países. Ainda assim, Teerão reagiu de imediato: o porta-voz das Forças Armadas classificou a medida como um “ato de pirataria” ilegal, enquanto a Guarda Revolucionária advertiu que “qualquer navio militar que se aproxime do Estreito será tratado com severidade”. Trump, por seu lado, ameaçou “fazer explodir” qualquer iraniano que disparasse contra navios norte-americanos e prometeu continuar a desminagem da via marítima, em cooperação com aliados como o Reino Unido.
Nos mercados europeus, o DAX de Frankfurt caiu mais de 1%, enquanto as praças de Milão, Paris e Madrid também recuaram. Os futuros de Wall Street apontavam para uma abertura negativa, e as bolsas asiáticas fecharam em baixa. Para além do impacto imediato nos preços do petróleo e do gás natural, a escalada reaviva a ameaça de perturbações nas cadeias de abastecimento mundiais. O analista Robert Pape advertiu que se está perante “a fase inicial de um choque sistémico de oferta”, que poderá fazer sentir a escassez de bens críticos em poucos dias. Na perspetiva de Brasília, a volatilidade dos preços energéticos pressiona a inflação e coloca desafios adicionais à política monetária.
A decisão de Trump arrisca ainda um confronto indireto com a China, principal importador de crude da região, que recebe cerca de metade do seu petróleo através de Ormuz. Pequim já advertira que o acesso às suas rotas marítimas “deve ser garantido”, e analistas admitem que um bloqueio total poderia forçar uma intervenção chinesa mais direta. Entretanto, o Irão ameaçou retaliar através dos seus aliados Houthis, que poderão fechar o estratégico Estreito de Bab al-Mandeb, por onde transita 12% do petróleo mundial, duplicando o risco de desabastecimento energético global.
Num conflito que já dura seis semanas, o fracasso das negociações — as primeiras de alto nível desde 1979 — revela o impasse sobre o programa nuclear iraniano. O vice-presidente J.D. Vance, que liderou a delegação americana, afirmou que foi essa a “linha vermelha” intransponível. Enquanto a diplomacia europeia tenta mediar, com uma cimeira em Paris sobre a segurança de Ormuz, observadores em Lisboa notam que uma disrupção prolongada teria consequências severas para as economias lusófonas dependentes de importações energéticas, como Portugal e os países africanos de língua oficial portuguesa. O desfecho imediato dependerá da resposta militar iraniana e da capacidade de Washington de manter um bloqueio limitado sem desencadear um conflito de maiores proporções.
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